Tem dias em que o guarda-chuva simplesmente perde a batalha, os sapatos nunca secam, e a única decisão sensata parece ser voltar para casa. E ficar lá.
Podemos simplesmente dizer que é um típico inverno de clima subtropical: frio, úmido, chuva atrás de chuva. Mas talvez valha a pena resgatar um pouco do humor britânico da era vitoriana.
Uma das minhas expressões favoritas, de utilidade prática quase nenhuma e relevância histórica bastante questionável, é champagne weather.
Hoje ela parece falar de um dia bonito, ensolarado, digno de um brinde ao pôr do sol. Mas, no século XIX, tem registros de ingleses usando a expressão justamente para o contrário: um dia bem miserável. E não porque lembrava o clima da região de Champagne (onde, diga-se de passagem, precisei comprar guarda-chuvas e caminhar de calças dobradas pra sobreviver), mas porque talvez só uma taça de champagne fosse capaz de melhorar aquele tempo. Pior que olhando por esse lado faz sentido, né?
Admito que gosto de usar um pouco humor para encarar a vida. E eles, ao invés de deixar o clima definir o humor, eles transformavam o desconforto em ironia.
Convenhamos: quando a chuva resolve passar dias sem dar trégua, motivos não faltam para reclamar. A casa demora a secar, as roupas acumulam no varal, o frio entra pelas frestas e parece se instalar de vez. Mas talvez possamos importar um pouquinho desse espírito vitoriano.
Em vez de “que tempo horrível”, quem sabe um despretensioso clima para champagne. Ou, abrasileirando de vez a expressão: Que dia de abrir espumante.
Quase uma releitura enológica para o famoso espírito brasileiro de encontrar graça no caos. Algo na linha do famosos “Que bela ideia esse casamento primaveril em pleno outono”, mas mais para o lado de “Que belo dia de chuva para uma taça de espumante.”
No fim mesmo, algumas garrafas não existem para celebrar dias perfeitos. Elas existem para nos lembrar que um dia cinzento também merece um brinde.
E por mim, ‘’Hoje é dia de abrir espumante” já faz parte do vocabulário. Agora só falta convencer mais gente.
__por Priscila D. Dal Lago

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