Eu praticamente faço coleção: de saca-rolhas, de taças, de rolhas, de vinhos. Minhas taças são meus troféus — cada uma guarda uma história completa, um lugar, uma noite, uma pessoa.
E bom, minha família tem um dom único e muito especial: quebrar taças.
Venho tentando me tornar mais flexível com isso, mas apego é algo natural do ser humano. Aos poucos, cada taça quebrada foi doendo menos — mas eu ainda insistia nelas, guardava, protegia, me frustrava quando alguma ia embora. Meus pais já nem queriam mais encostar na louça lá em casa. Ninguém aguentava mais o meu drama por causa de um cristal.
Foi assim, entre uma quebra e outra, que as taças ganhadas de presente se tornaram as protagonistas do dia a dia. Não são as favoritas — nunca vão substituir aquelas com história —, mas fazem o trabalho delas. E, curiosamente, o vinho fica até melhor bebido nelas: sem a aflição, sem o suor nervoso de quem vai lavar a taça depois, com medo de mais uma perda.
Acho que foi aí que entendi uma coisa: a taça ideal não é a mais perfeita. É aquela que nos permite saborear sem pressão.
Isso vale pra taça. Mas não só pra elas.
Nenhum vinho perde a alma por não estar na taça favorita, mas muitos bons vinhos deixam de ser degustados por não aceitarmos fazer sem a taça perfeita. Sinceramente? Vai,
****Infelizmente, muitas taças foram quebradas para inspirar esse texto.

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