Tu chega diante de uma prateleira de vinhos, procura um rótulo conhecido, escolhe entre Chile, Argentina, Portugal, França, Itália… e passa direto pelos brasileiros.

Eu não vou dizer que é tua culpa, tá?

Por muito tempo, quando a gente falava em vinho, parecia que as melhores histórias estavam sempre do outro lado da fronteira. Como se, para encontrar uma boa garrafa, fosse preciso atravessar um oceano, uma cordilheira ou, no mínimo, o Mercosul.

Aquela história de que a grama do vizinho é sempre mais verde, sabe?

Só que tem uma coisa curiosa acontecendo por aqui. O vinho brasileiro está aprendendo a contar a própria história. E isso não quer dizer que ela esteja começando agora, mas sim que a gente tá defendendo e se orgulhando ainda mais dela.

Existe uma coisa bonita em descobrir um vinho de um lugar que a gente conhece.

Tu olha para o rótulo e reconhece o nome da cidade. Talvez já tenha passado por aquela estrada. Talvez conheça alguém que mora ali. Talvez tenha visto aquelas parreiras no inverno, quando parecem quase mortas, e depois voltado no verão para encontrá-las cheias de folhas.

De repente, o vinho deixa de ser simplesmente vinho e ele vira lugar.

É uma das coisas que eu mais gosto nas indicações geográficas. Elas não servem só para dizer de onde veio uma garrafa. Elas ajudam a construir uma relação entre território, pessoas, cultivo e maneira de fazer vinho.

No Vale dos Vinhedos tem regras específicas para cultivo, produtividade, origem das uvas e elaboração dos vinhos.

Isso pode parecer técnico, mas, no fundo, é uma história bastante simples, é alguém dizendo: “Esse vinho tem a ver com este lugar.”

E talvez seja justamente isso que esteja tornando o vinho brasileiro tão interessante.

Talvez o nosso maior erro seja procurar no vinho brasileiro aquilo que a gente já conhece nos vinhos de outros países.

Esperar que ele seja como um francês. Ou como um argentino. Ou como um italiano.

Mas o vinho brasileiro é vinho brasileiro! Ele tem seus próprios desafios, clima, paisagens e uma história de construção de identidade.

E sinceramente, pra mim uma das maiores vantagens é que ainda existe espaço para experimentar. Para errar. Para descobrir. Para alguém plantar uma variedade em um lugar improvável e, depois de uns anos, perceber que ali havia uma história esperando para ser contada.

Da próxima vez que tu estiver diante de uma prateleira de vinhos, antes de procurar o país que tu já conhece, quem sabe tu procura lugar que está mais perto?

Escolhe uma garrafa brasileira. Descobre de onde ela veio.

Pode ser da Serra Gaúcha. Talvez do Pampa. Quem sabe das montanhas de Santa Catarina. Ou então de algum lugar que tu ainda nem conhece e nunca imaginou que produzia vinho por aqui.

Porque talvez seja esse o momento mais interessante do vinho brasileiro. O momento em que a gente deixa de beber apenas o vinho de outros lugares e começa, finalmente, a descobrir o gosto do nosso.

E isso, convenhamos, já é uma boa razão para brindar.

_por Priscila D. Dal Lago

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