Tenho uma garrafa que nunca vou abrir. Ok, tenho umas 4, mas hoje vamos falar de uma só.
Essa ganhei na formatura do curso técnico em enologia, aos 18 anos. Não tem rótulo, não tem descritivo, não diz a uva, não tem safra escrita em lugar nenhum, só tem uma foto da turma colada no vidro, todo mundo bem mais novo do que é hoje.
Ela fica deitada na estante da sala. Deitada, ok, mas no pior lugar possível pra um vinho: luz de todos os lados, o dia inteiro. E tudo bem. Ela não está lá pra durar mesmo. Está lá pra lembrar., quase como um porta-retrato mesmo, mas numa versão mais vitícola.
Aquela garrafa não guarda um vinho. Guarda uma dúvida, e um possível vinagre.
Na época em que ganhei, eu tinha acabado de terminar o curso e não fazia a menor ideia do que ia vir depois. Eu pensava em enologia, agronomia, história, psicologia, passava de uma certeza pra outra sem conseguir ficar em nenhuma. Achei que era coisa de dezoito anos e que ia passar. Achei que um dia eu ia abrir aquela garrafa já sabendo exatamente quem eu tinha me tornado, com uma resposta pronta pra comemorar.
Dez anos depois, tenho muito mais dúvida do que tinha naquele dia. E de uma forma meio surpresa eu gosto.
Demorei pra entender que a garrafa nunca foi sobre chegar numa certeza, era sobre o momento exato em que percebi que não precisava ter uma. Ela guarda a primeira vez que me permiti não saber. E acho que é por isso que não abro: abrir seria fechar aquele momento, dar um fim pra ele, dizer “ali eu não sabia, agora eu sei”. Mas eu ainda não sei né. E gosto de ter uma garrafa em casa que confirma isso, ano após ano, do jeito mais melancólico possível.
Às vezes olho pra ela na estante, exposta demais, errada demais pro que qualquer enólogo recomendaria, e penso que talvez seja exatamente essa a graça. Um vinho de verdade precisa de cuidado, de sombra, de temperatura certa, pra virar aquilo que promete. O meu, não. O meu só precisa continuar ali, do jeito errado, pra me lembrar de uma coisa que nenhum curso me ensinou: a gente não é só uma coisa. E também não dá pra fazer tudo.
Ela vai continuar deitada naquele lugar ruim, pegando luz que nenhum vinho merece. Vou continuar sem abrir. Não esperando a ocasião certa pra abrir, mas porque descobri, dez anos e muitas dúvidas depois, que a ocasião já aconteceu. Foi o dia em que percebi que não sabia de nada. E que estava tudo bem.
Ah, eu sou contra guardar vinhos caros, esses por favor criem uma ocasião pra beber, sério mesmo. Mas tem alguns que a lembrança vale mais que abrir mesmo.
_por Priscila D. Dal Lago

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