Fim de agosto sempre me dá um pouco de nostalgia. E, ao mesmo tempo, tem um certo gostinho de recomeço.

Por aqui é a famosa época de “amarrar e cortar as parreiras”. Falando assim, confesso, não parece uma atividade otimista. Mas é justamente o contrário. Amarrar, cortar, conduzir. É hora de decidir quais galhos vão ficar, quais vão dessa pra uma melhor e para onde a planta vai crescer quando a primavera chegar.

Por algum motivo, sempre achei essa época da poda um pouco triste. Talvez porque sempre é frio, e enquanto boa parte de nós reclama do frio no ar condicionado, tem produtor passando horas no vinhedo com uma tesoura na mão. Ou, talvez porque, depois dos cortes, a videira chore. Ou uma mistura dos dois.

Ah, sim, ela chora mesmo. Bom, falando tecnicamente é seiva escorrendo pelos cortes quando a planta começa a retomar sua atividade. Mas chamar de choro é muito mais dramático, então obviamente prefiro assim.

Só que quanto mais penso sobre a poda, menos triste ela me parece.

A videira passou o inverno em dormência (tipo os ursos hibernando). Agora está prestes a acordar e precisa se preparar para tudo que vem pela frente: brotar, florescer, formar os cachos e, meses depois, entregar as uvas da próxima safra.

E antes de fazer tudo isso, ela passa pela tesoura.

Talvez uma das decisões mais importantes do ciclo inteiro seja justamente essa: Qual galho vai ser cortado?

Porque não dá para deixar todos. Por que? Por que não, vai sobrecarregar a planta.

A poda dá a oportunidade da planta poder colocar energia no que realmente importa e pode ser exatamente nesse ponto que minha implicância com a poda começa a diminuir.

Eu sempre vi muito a poda como perder. Encerrar projetos, abandonar planos, mudar de ideia, deixar algumas coisas para trás. Parece sempre que deveríamos conseguir carregar tudo com a gente, afinal, se conseguimos chegar até aqui, por que cortar agora?

A videira parece não ter esse apego todo.

Todo ano ela cresce. Todo ano perde folhas. Todo ano entra em dormência. E todo ano alguém chega com uma tesoura e corta boa parte daquilo que ela levou meses para construir.

Um pouco radical? Com certeza.

Mas ela não está sendo podada porque deu errado. Está sendo podada justamente porque vai continuar crescendo.

Acho que o difícil não é nem aceitar que algumas coisas precisam ser cortadas, mas sim descobrir qual é o galho que vamos podar. E, pensando bem, ainda prefiro que essa decisão fique com o viticultor.

Eu já tenho dificuldade suficiente podando a minha própria vida, e acreditem, podar videira nunca foi uma coisa que eu tive facilidade, prefiro até mais fazer enxertia do que podar, pode ser justamente daí que vem o medo. Quem sabe na próxima safra me aventuro.

_por Priscila D. Dal Lago

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