O consumo de vinho caiu.
O consumo mundial de vinho chegou ao menor patamar desde 1957. Caiu nos Estados Unidos, caiu na França, caiu com força na Itália, na China, na Alemanha. Praticamente todo mercado diminui o consumo.
Menos o Brasil.
Enquanto o mundo bebe menos, a gente tá bebendo mais vindo que nunca. Um recorde histórico.
Coincidência isso com o fato do ”jeitinho brasileiro” estar na moda ao redor do mundo? Acho que não, mas aqui é achismo meu mesmo.
Esse texto não é pra dizer que temos que beber mais, cada um tem suas razões. Mas quero falar de algo que me incomoda muito: a eficiência exagerada. Rotina eficiente, reunião eficiente, relaxamento eficiente… E o vinho, essa bebida que só existe porque alguém, há muito tempo, teve paciência de esperar a uva virar outra coisa, está entrando nessa rotina.
O mundo está bebendo menos por escolha ou por que tá faltando tempo na rotina até pra isso?
Vinho não foi feito pra pressa, ele é oposto disso. Alguém plantou, podou, esperou, colheu, esperou de novo, engarrafou e esperou mais um pouco. Um vinho de safra OK pode carregar uns dois, três anos de espera antes de chegar na taça. E a gente bebe ele em oito minutos, olhando pro celular e rolando o feed.
Longe de mim dizer que tudo precisa de ritual, se não isso também vira pressão, e pressão não combina com prazer. Mas talvez a pergunta não seja “quanto estamos bebendo”, e sim “quanto estamos, de fato, presentes quando bebemos”.
Lá fora, a queda parece falar de gente bebendo menos, ponto. Envelhecimento populacional, preocupação com saúde, preço, novos hábitos. Aqui, o movimento é oposto: mais gente entrando pro vinho, mais garrafa vendida, mercado inteiro crescendo. Mas crescer em volume não é o mesmo que crescer em atenção. Dá pra vender mais garrafas e, ainda assim, cada taça valer menos tempo do que valia antes.
A garrafa continua na prateleira do mercado, e agora tem mais gente levando ela pra casa. Falta só a gente levar, junto, um pouco mais de tempo.
Então fica a pergunta pra ti, na próxima taça tu vai beber ou só atropelar a taça?
_por Priscila D. Dal Lago

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