Viajar é um dos maiores privilégios da vida. E um dos maiores desafios.

Desde muito cedo, eu sabia exatamente o que queria ser quando crescesse: alguém que viaja. Não uma turista, mas uma viajante.

Eu não sabia muito bem o que isso significava, já que na minha infância, viajar não fazia parte da nossa rotina. Ainda assim, esse desejo sempre fez parte de mim. Durante muito tempo, sonhei em conhecer lugares novos, viver experiências diferentes e encontrar emoções que eu acreditava que o lugar de onde vim jamais poderia me proporcionar.

Ao longo dos anos, conheci lugares que viviam nos meus sonhos a muito tempo. Descobri sabores, paisagens, histórias e pessoas que ampliaram minha forma de enxergar o mundo.

Mas a bagagem mais bonita que uma viagem pode nos trazer não cabe em uma mala. Ela está na forma como passamos a olhar para a vida.

Conhecer outras culturas nos faz olhar com muito mais carinho para a nossa.

Neste ano, conheci três novos países e simplesmente me apaixonei pela Escócia. Vi algumas das paisagens mais silenciosas e bonitas que já encontrei. Morros que parecem contar histórias em voz baixa para quem está disposto a escutar.

Como acontece em quase todo lugar novo que descubro, logo me fiz a mesma pergunta clássica de sempre: “Eu deveria me mudar para cá?”

Dois dias depois, já na Irlanda, me peguei pensando exatamente a mesma coisa. Bom, somos cidadãos do mundo né. Mas esse não é o ponto da conversa aqui, então segue.

No último final de semana, minha mãe me ligou pedindo que eu comprasse açúcar e levasse até o interior. Ela ia fazer figada.

No caminho de volta para casa, percorri a mesma estrada que conheço há mais de vinte anos.

Final de maio e final de outono. Os vinhedos já dourados. As árvores começam a escurecer com a mudança da estação. O céu naquele tom de azul difícil de explicar, uma mistura de frio e aconchego.

Olhei para os morros ao meu redor, liguei o pisca e parei o carro no canto da estrada de chão.

Fiquei ali por alguns minutos. Em silêncio. Observando.

E então me dei conta de uma coisa.

O caminho que percorri durante a vida inteira é uma das paisagens mais bonitas que já vi.

E eu precisei atravessar o oceano, caminhar pelas terras altas da Escócia, enfrentar dias de -7ºC e admirar os morros de outros lugares para enxergar isso.

Viajar tem esse poder, o de mudar nossa ótica.

Nos empresta novos olhos, e esses enxergam um horizonte maior.

E, na hora de voltar pra casa, começamos a perceber beleza onde antes existia apenas familiaridade.

Acho que viajar não seja apenas uma forma de descobrir novos lugares, mas também uma forma de voltar para casa com novos olhos.

E assim a gente percebe que algumas das coisas mais bonitas que procuramos pelo mundo inteiro sempre estiveram conosco.

__por Priscila D. Dal Lago

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