Durante anos, toda vez que alguém me perguntava sobre harmonização, eu respondia meio em tom de brincadeira: Esse vinho harmoniza com água.

Era a minha forma de dizer que ele não precisava de mais nada, que bastava uma taça, um tempo e talvez um copo d’água ao lado. E sempre foi uma resposta que ninguém contestava.

Na época, eu achava que era só uma resposta prática, mas, como quase tudo no vinho (e na vida) algumas brincadeiras escondem pequenas verdades que a gente só percebe muito tempo demais.

Recentemente, assisti a uma palestra sobre água. Não sobre vinho, nem sobre gastronomia, nem serviço de restaurante. Sobre água mesmo.

E foi ali que me dei conta que a gente fala de terroir, de solo, de clima, de origem… mas quase nunca pensa que a água também vem de algum lugar. A mesma que permite a uva e vida de florescer, também tem uma história própria e não é só coadjuvante.

Água tem fonte. Tem composição mineral. Tem textura, peso, e preferencialmente não tem sabor, o que também é uma característica.

E, mais do que isso, ela interfere em tudo o que vem depois.

Um gole de água pode abrir ou fechar um vinho.
Pode limpar, preparar, reposicionar o paladar.
Pode fazer a próxima taça parecer outra.

Talvez por isso, sem saber, eu já repetia aquela frase há tanto tempo.

Não porque o vinho não precisa de comida, mas porque ele já era suficiente sabe? E a água estava ali só para manter esse encontro honesto e digno.

A gente costuma pensar a harmonização como super algo complexo.
Pratos elaborados, combinações pensadas, regras que às vezes mais afastam do que aproximam, notas que muitos de nós nem conhecemos, quando na verdade, as melhores experiências com vinho raramente são as mais planejadas.

São as mais presentes e as que nos sentimos mais confortáveis.

Uma taça que você gosta.
Um momento que faz sentido.
E, ao lado, um copo de água, quase invisível, mas essencial.

A comida pode vir depois. Ela pode melhorar, complementar, surpreender, mas, antes disso, existe algo mais simples.

Existe o vinho.
Existe você.
E existe essa pausa entre um gole e outro.

Talvez a melhor harmonização não seja sobre o que combina com o vinho, mas sobre o que permite que ele continue sendo ele. E, nesse sentido, a água nunca rouba a cena. Ela só garante que a história continue.

__por Priscila D. Dal Lago

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Pega tua taça, e boa leitura (: