Se eu ganhasse dinheiro para cada vez que escuto “eu não sei escolher vinho”, talvez agora eu estivesse vivendo numa ilha isolada, bem longe da internet. Só eu, quem amo e uma bela adega recheada (principalmente de espumante).

Quando me pedem dicas de bons vinhos, eu quase sempre devolvo com outra pergunta: o que tu não gosta?

E pode parecer bobo, mas não é.

As pessoas, admito que não sei por qual motivo psicológico, conseguem nomear com muito mais facilidade aquilo que não gostam do que aquilo que amam. O “não” vem rápido, claro, quase automático. Já o “gosto” precisa de tempo, e, muitas vezes, experiência.

E é nesse ponto que entra um ritual silencioso, mas muito importante. A gente prova muitos vinhos, gosta e nem percebe. Segue em frente. Nem presta tanta atenção.

Mas existe um momento pequeno, quase nunca valorizado, mas que muda tudo. É aquele em que tu escolhe um vinho sozinho, abre, prova… e diz: “hmm não gostei.”

Parece um erro. Parece que você falhou na escolha da garrafa perfeita. Parece que se afastou do “acerto”. Parece, sinceramente, quase um pecado.

Como se de alguma forma isso te afastasse de entender de vinho. Como se o único objetivo fosse acertar sempre, quase como se estivéssemos todos tentando, em segredo, nos tornar especialistas. Quase um concurso pra ser o próximo Robert Parker.

Mas esquecemos, como quase sempre, de ver o lado positivo. Porque é exatamente nesse ‘’não gostei’’ que desperta algo muito mais importante.

É a primeira vez que você se escuta. É a primeira vez que você começa a entender, de verdade, o que te agrada, e não pelo que disseram, não pelo rótulo, não pela expectativa, mas simplesmente pela tua própria experiência.

Errar na escolha do vinho não te afasta.

Te aproxima. Te dá referência. Te dá critério. Te dá repertório.

Nem tudo na vida é erro ou acerto, e nesse caso, talvez nem seja erro mesmo. Comprar um vinho que tu não gosta pode ser o primeiro passo para construir segurança vínica para se permitir experimentar e entender que o paladar não nasce pronto, ele se constrói.

E não vai ser na primeira tentativa! E sendo bem honesta provavelmente nem na décima…

Mas, aos poucos, entre uma escolha e outra, entre um “gostei” e um “não gostei”, alguma coisa se ajusta. E é exatamente aí que mora o verdadeiro aprendizado.

Não o de acertar sempre, mas o de aprender a reconhecer, aos poucos com mais segurança os pequenos prazeres que fazem sentido pra você.

Nota de desabafo: Hoje eu sei o que gosto, e ainda assim compro alguns que não gosto, só pra experimentar, pra conhecer, e as vezes só por que o rótulo é bonito… Nunca fui presa por isso (e espero não ser). Acreditem se quiser, não tem certo ou errado.

__ por Priscila D. Dal Lago

Deixe um comentário

seja bem vindo ao Clube 750

Aqui não falamos sobre o mundo do vinho, e sim do mundo com vinho (sempre com menos de 750 palavras). Um espaço de pausa, para apreciar o vinho e a vida com calma.

Pega tua taça, e boa leitura (: