Vinho conta histórias porque ele tem terroir. Principalmente o terroir humano, que tem raízes que sustentam lugares inteiros.

A região de Champagne, na França, talvez seja o case mais bem-sucedido do mundo do vinho em promover seu produto e sua cultura por meio do marketing. O que mais me chama atenção é que se trata de uma região protagonista de muitas condições adversas, já que nasceu com um solo pobre, uvas naturalmente ácidas, e localizada em um caminho que por séculos foi rota de passagem de tropas durante guerras. E mesmo assim conseguiu construir seu nome com base na consistência. Ano após ano, safra após safra, seguiu entregando um padrão de qualidade inquestionável.

Particularmente, eu sabia que na região os champagnes amadureciam em caves subterrâneas. Mas quando pisei em uma cave a mais de 30 metros abaixo da terra, entendi essa sensação pela primeira vez. Aquilo não é turismo. É história.

As caves subterrâneas de Champagne são antigas minas de giz. Antes de abrigarem grandes champagnes, foram abrigo de pessoas, hospitais improvisados e refúgio durante as guerras que a região enfrentou. Essa história é contada nas paredes, nas escritas deixadas por quem ali se abrigou e pelo manuseio dos champagnes que ali nasceram.

E quando chove, o que acontece muito por lá, as caves ficam com pequenas poças de água. Porque aquilo não foi criado para ser bonito. Foi criado para permitir que a vida continuasse. Ao visitar a primeira cave eu estava usando uma calça jeans que cobria meu tênis e precisei prender a barra dela dentro da meia de uma forma nada elegante, afinal a calça já estava encharcada de água. Foi isso que me fez sentir ainda mais perto do lugar. Aquela não era a Champagne do glamour. Era o glamour que nasceu do sonho de pessoas que trabalharam muito arduamente para isso.

Hoje, as caves são o refúgio perfeito para que os vinhos amadureçam lentamente, longe da superfície. Temperatura estável, umidade constante e proteção contra os perigos dos raios solares.

Caminhar por aqueles corredores silenciosos muda a forma como a gente olha para uma garrafa.

Champagne não nasceu como luxo. Nasceu como sobrevivência.

Nasceu em um lugar onde quase nada parecia ideal para o vinho. O clima frio, o solo pobre, a uva ácida e as guerras frequentes. Talvez seja justamente isso que explica tudo.

Grandes vinhos não surgem de lugares perfeitos. Surgem de lugares onde as pessoas insistem e trabalham juntas. As maisons precisam das uvas de produtores rurais, as decisões são tomadas em conselho e todos buscam levar o nome do produto para o mundo.

Enquanto caminhava pela cave, torcendo para a barra da minha calça não ficar ainda mais molhada, pensei que cada garrafa ali amadurece em silêncio por anos. Sem pressa. Sem espetáculo. Apenas tempo, paciência e constância.

Talvez seja por isso que Champagne virou sinônimo de celebração.

Porque antes de qualquer brinde existe uma história de resiliência. E são essas histórias que merecem ser brindadas em grande estilo.

Poucas regiões do mundo transformaram adversidade em elegância como Champagne. Então desejo que sejamos e brindemos como Champagne!

__por Priscila D. Dal Lago

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