Vinho é feito de uvas fermentadas.
O mosto tem seu açúcar transformado em álcool por leveduras. Fim. Isso é vinho, de forma simples e direta.
Depois disso, cada país cria suas próprias regras: teor alcoólico, açúcar residual, conservantes, denominações. Mas, no fundo, o vinho nasce assim, e o lugar onde ele nasce já começa a desenhar como ele será.
E então vem a pergunta que sempre me intriga: Quem nunca bebeu duas garrafas do mesmo vinho, da mesma safra, e teve duas experiências completamente diferentes?
Uma garrafa aberta entre amigos, numa noite em que a conversa e as risadas são um pouco mais altas que o normal, onde nem se percebe quando a segunda taça é servida, e a terceira, e a quarta… esse vinho tem um sabor.
Outra garrafa, aberta sozinha, numa terça-feira qualquer, tem outro sabor. Deve ser porque o vinho, assim como nós, nasce de algo concreto, mas ganha vida por seus fatores invisíveis.
A uva é só o começo. Existem escolhas que quase ninguém vê, mas que mudam tudo: o vidro da garrafa passa por testes de resistência para sobreviver ao transporte; o papel do rótulo muda conforme o destino, por exemplo se ele vai para a geladeira então precisa resistir à umidade para não criar bolhas. Existe o tipo de levedura, o estilo de prensagem, o tempo, o lugar de venda, a expectativa criada, o momento em que aquela garrafa é aberta, até a taça em que é servido.
Tudo influencia na percepção do vinho.
Nós também nascemos. Mas o que realmente nos dá vida não é biológico.
O que nos forma são esses mesmos fatores invisíveis que transformam os vinhos, e os meu favorito sempre foi e sempre vai ser as pessoas. Eu gosto de pensar que somos um pouquinho de cada pessoa que amamos, e que escolhemos carregar com nós.
Eu aprendi a gostar de espumante no meu primeiro emprego, porque minha coordenadora falava dele com um brilho nos olhos que tornava impossível não gostar. Da poda aprendi a gostar por ser fã de um professor que é incrível no que faz, e de fitopatologia por um mestre da viticultura brasileira que me explicou a propagação do míldio com paciência.
Mas tem muito pra além de uva e vinho. Como alface todos os dias, isso porque aprendi com uma amiga de infância que adorava. Um ex-colega era fã de Oriente, e até hoje escuto músicas. Aprendi a comer sorvete com azeite de oliva por causa da Dua Lipa (nem todas as pessoas que amamos conhecemos pessoalmente, né?). Parmesão com vinagre, um jeito de falar, um esporte, uma marca de roupa, uma história do mundo, ou um lugar. Tudo vem de alguém, e fica por que escolhemos carregar isso.
No fim, somos um grande compilado de fatores invisíveis que escolhemos absorver, e também dos que escolhemos não carregar. Isso também nos transforma em quem somos.
O vinho nasce da uva, mas ganha vida através de todas as mãos, decisões e histórias que cruzam o caminho dele. Ainda assim, o momento de apreciá-lo conta muito.
Nós nascemos, e o que nos dá vida são as pessoas e as coisas que escolhemos amar. Somos um museu vivo: de bons momentos, de frases emprestadas, de gostos adquiridos sem perceber, de pessoas que deixaram marcas suaves e permanentes.
Talvez seja por isso que um vinho nunca seja só vinho.
E que um amigo nunca seja “só” um amigo.
Hoje, olhando para o Clube 750 tomando forma fora da tela eu entendo: tem coisas que só fazem sentido quando são compartilhadas.
Agradeço a todos que fazem parte dos bons vinhos que bebo.
E agradeço, especialmente, a quem eu amo, pois são vocês que fazem com que qualquer vinho seja bom de beber.

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