Quando pensamos em vinho, é normal nossa mente nos levar automaticamente para França ou Itália. Talvez Espanha ou Portugal, e quem sabe até nossos vizinhos argentinos ou chilenos né?
No Brasil, produzir vinho é algo cultural. O reconhecimento internacional é algo de poucas décadas, mas que cresce muito. Quando pensamos em vinho fino, normalmente tinto, talvez um Cabernet Sauvignon ou um blend estilo bordalês, raramente pensamos no Brasi. O Brasil, de fato, é um grande nome do cenário mundial, mas por outros méritos. Deixo aqui carinhosamente uma menção mais que honrosa aos espumantes brasileiros.
O Brasil é o único país do mundo a ter três tipos diferentes de viticultura. Em palavras bem diretas: a gente produz uvas de três jeitos diferentes. Só nós.
Existe a viticultura tradicional. A videira tem um ciclo que leva um ano para produzir uvas: no inverno entra em dormência (por isso precisa de frio) e no verão colhemos a uva. O mundo produz assim — e o sul do Brasil também.
Mas fomos além.
O Brasil criou a viticultura tropical. Sim, um nome bem brasileiro. Ela é feita no Nordeste: a gente produz uva na Bahia! Mas uva não precisa de frio? Depende. O famoso jeitinho brasileiro (muita pesquisa) encontrou uma forma de produzir continuamente. A planta não para. Colhe-se uva mais de duas vezes por ano e se obtém uma das uvas mais doces do mundo. Boas para vinho? Algumas sim. Mas especialmente perfeitas para consumo in natura. Sabe aquelas uvas sem semente maravilhosas que a gente come geladinhas? Pois é.
E no centro do Brasil?
Aí entra em campo um engenheiro agrônomo e decide criar mais um jeitinho brasileiro muito especial de produzir uva. Foram anos de testes até chegar no ponto ideal para uma uva intensa e um vinho longevo. No coração do Brasil surge a dupla poda, um sistema que faz o contrário do resto do mundo: colhe a uva no inverno e poda no verão. O resultado? Uma baga de uva menor e automaticamente um vinho mais intenso.
Somos também um gigante produtor de vinho de mesa, elaborado com uvas americanas. Foram elas inclusive que permitiram o início da viticultura no Brasil e que salvaram a Europa da filoxera, ajudando a ser base para a criação de porta-enxertos resistentes a doenças de solo.
E tem o suco de uva, o nosso suco de uva. Sabia que, do jeito que conhecemos, ele só existe no Brasil? O nosso suco é tão nosso que poderia se chamar suco de uva brasileiro. E quem já provou entende por que ele é um dos campeões de exportações no setor vitivinícola: o resto do mundo também quer ele.
O Brasil é muito novo no mundo dos vinhos — e novo de forma geral. Isso poderia ser uma grande desvantagem num mercado que é marcado pela tradição e por produções regradas. Mas e se essa for a nossa maior vantagem?
Ser jovem nos permite testar, criar e experimentar.
Aqui o clima não é 100% ideal tecnicamente, mas a viticultura nasceu de paixão e vontade de fazer acontecer. Não fizemos porque dava, fizemos porque era nosso propósito. Uva, para a gente, é um assunto sério. Seja ela vinho, suco, fruta, sobremesa ou até junto da cachaça.
O Brasil pode estar longe de ser o país do vinho, e que bom! Assim podemos continuar sendo o país que testa, cria e inova. E, carinhosamente consagrado por mim, o país da viticultura. Não onde ela nasceu, mas onde ela se reinventa.
E talvez seja justamente isso que nos torne únicos: aprender a fazer do tempo, da adaptação e da paixão o nosso maior terroir.
__por Priscila D. Dal Lago

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