Nem toda safra de uva é boa, especialmente no Rio Grande do Sul. Todos os anos sempre existe a expectativa, e são muitos desafios: Chove demais, ou chove de menos, ou na hora errada, ou dá granizo, as vezes geada e quase sempre problema com umidade alta combinada com calor. Aqui até já ouvi um ditado popular de que safras ímpares são ruins e as de anos pares são boas. Fonte: Uma conversa de elevador com um agricultor.

Nas safras ruins, a uva não chega no grau brix ideal, as vezes a acidez não tá no ponto perfeito, ou se produz muito pouco, mas produzir muito também não é favorável, e a colheita é feita às pressas. E por que com esse ”caos” ainda assim deveríamos agradecer as safras ruins?

As safras, as ruins e as boas, deixam equipes inteiras nas vinícolas durante dois meses ou mais, pois a videira não para. E mesmo já sendo naturalmente desafiador, as ruins ainda são mais desafiadoras. Nas safras ditas ruins, já sabemos que não podemos esperar os melhores ou mais longevos vinhos, mas são elas que ajudam a criar os melhores enólogos, e graças a elas, quando safras excepcionais (tal qual 2020) chegam, esses estão prontos para extrair o melhor possível do fruto. E é também nas safras desafiadoras que a criatividade aflora, pois é permitido ‘’testar’’ coisas novas, se fossem todas iguais os produtos talvez não evoluiriam.

2025 não foi uma safra dita fácil para mim pessoalmente (coincidência ser uma safra ímpar?), mas foi a safra que mais aprendi, e coincidentemente me sinto como um enólogo em final de safra pensando ‘’Na próxima eu já sei como vou fazer, e vai ser melhor’’. E nisso, em meio a louros e choros, veio a pergunta mais agronômica possível: safra ruim para quem?

A safra boa e a ruim são medidas por padrões únicos e exclusivamente humanos. Inclusive todo mundo conhece o dito popular que resume anos de faculdade, fisiologia de plantas e agrometeorologia que é ‘’quanto mais a videira sofre melhor é o vinho’’, e é verdade, quanto mais a videira sofre melhor é o fruto, pois o fruto representa a continuidade da espécie pra ela. Videira que não sofre, também dá frutos, não tão bons, mas ainda frutos. E em ambos os casos, pra ela foi uma safra boa, pois o objetivo da videira não é produzir o melhor vinho do mundo que será leiloado após passar 40 anos em caves subterrâneas com temperatura controlada, o objetivo é seguir em frente. Dar frutos, e que esses gerem novas plantas. E seguir, como ela segue desde antes dos humanos existirem. Melhorando, se adaptando, se redescobrindo, mas sempre seguindo.

De fato, são as safras ruins que nos ajudam a valorizar as boas.

E esse ano, particularmente, eu percebi que eu não conseguia me decidir se tinha sido uma safra boa ou ruim, pois aconteceram muitas coisas incríveis com as quais eu só tinha ousado sonhar, e tragédias com as quais nem em pesadelos eu tinha ousado conhecer.

Mas com o final do ano e o clima melancólico eu decidir agradecer, e entendi que não foi nem boa nem ruim, agradecer por ter sido mais uma safra. E boa ou ruim, foi uma safra com frutos. Obrigada!

__por Priscila D. Dal Lago

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