O clima natalino sempre chega bem devagarinho, quase tímido, como quem reencontra a porta de casa depois de um ano inteiro de caminhos longos. Ele entra sem pedir com licença, e traz com ele memórias que cheiram a nostalgia, doce e pão no forno, além de abraços.

O vinho, na mesa da nossa ceia (que pode ser dia 24 ou durar semanas), observa tudo com a calma de quem sabe esperar. Ele não se apressa, conhece o ritmo da noite, sabe que o Natal é feito de pequenos gestos: do abraço ligeiramente mais demorado, o sorriso que se acende ao ver alguém chegar, o silêncio confortável entre um gole e outro. É nesses mínimos detalhes que mora a beleza da data.

E quando a garrafa é aberta, o som da rolha parece um convite: “Senta aqui mais perto. A vida está acontecendo agora.”
Porque o vinho tem essa gentileza de aproximar, de aquecer, de abrir espaço para conversas que ficaram guardadas o ano todo. Mas, no fundo, ele sabe, e a gente também, que o verdadeiro brinde não está na taça. Está nas pessoas.

O brindo é pelos reencontros, mesmo os tímidos. Brindamos pelas risadas que escapam sem querer, e pela mesa cheia ou meio vazia, mas sempre viva. Brindamos aos que vieram e aos que ficaram nas nossas melhores lembranças, porque memória também é presença quando o coração se abre.
Brindamos, sobretudo, ao privilégio simples de estarmos aqui: juntos, imperfeitos, tentando fazer caber o amor nas horas curtas da véspera.

O Natal tem esse poder raro de nos lembrar da delicadeza do tempo. De como cada instante compartilhado é único, mesmo quando parece muito pequeno. Tem vezes que a melhor parte da noite é apenas observar: as luzes piscando, alguém servindo mais um pedaço de sobremesa, o riso solto de quem já bebeu uma taça a mais.
E perceber que a vida, tão corrida, ainda nos permite esses respiros de alegria mansa.

Talvez seja isso que o vinho entende melhor do que nós: que os brindes mais importantes são invisíveis. Não dependem da safra, do rótulo, nem da melhor taça ou da mesa perfeita. Eles nascem da gratidão, essa emoção que deixa o coração quentinho, que chega como uma brisa morna, lembrando que tudo o que temos de verdade são os momentos vividos com quem a gente ama.

E quando, no final da noite, alguém levanta a taça e diz “Feliz Natal”, o que se derrama não é apenas bebida. É a certeza de que ainda podemos celebrar o que importa de verdade: a oportunidade de sempre recomeçar, e cada vez com o coração um pouco mais cheio.

Alguns brindes não cabem em taças.
E é justamente isso que faz o Natal tão bonito.

__por Priscila D. Dal Lago

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Pega tua taça, e boa leitura (: