A viticultura chegou ao Rio Grande do Sul junto dos imigrantes italianos e alemães, por volta de 1880. E, entre o desbravar das matas fechadas, a abertura das estradas e o erguer das primeiras casas, foi um outro trabalho, silencioso e profundamente feminino, que manteve a cultura da uva viva.
Para elas a uva era mais do que fruta. Era sustento, memória e ritual.
Era comida na mesa, era a chimia que acompanhava o pão, era a doçura rara da cuca nos domingos de festa. Era o vinho pro sagu das crianças e, às vezes, um vinagre, também essencial, pois ele que dava sabor a saladas e mantinha as conservas, essenciais numa época sem eletricidade.
Enquanto os homens derrubavam árvores e erguiam paredes, as mulheres sustentavam o coração das colônias. Cultivavam hortas, cuidavam dos filhos, dos animais, da casa — e ainda encontravam espaço, força e sensibilidade para cultivar algo tão delicado quanto a videira. Uma planta que exige paciência, cuidado e fé. Os homens trabalhavam muito, mas elas nunca paravam de trabalhar.
E foram elas, nos pequenos parreirais de pé franco, que mantiveram viva a chama da cultura do vinho, e fez essa se reproduzir.
Foram elas que inspiraram uma região inteira a acreditar que dali poderia nascer algo maior, com vocação do terroir e resiliência de quem produzia.
E assim vieram os investimentos, a tecnologia, a coragem. E nasceu, no coração da Serra Gaúcha, em Bento Gonçalves, a primeira escola de enologia do Brasil.
Foram as nonas, as mães, as irmãs e as filhas que, com mãos cansadas e corações esperançosos, começaram a escrever a história da viticultura brasileira.
Uma história que segue sendo escrita, por elas e com elas.
E que seguirá sendo. Com estudo, pesquisa, dedicação e orgulho.
Nota de homenagem
Que este texto também é um tributo especial às mulheres da minha família. Às que vieram antes de mim, às que estão aqui e às que ainda virão. Que mantiveram viva a chama da esperança em dias melhores, e trabalharam incansavelmente com a família e a comunidade.
Que cada uma delas seja lembrada pelo cuidado que dedicou às raízes, pela força que sustentou os parreirais e pela coragem que cultivou futuros, inclusive o meu.
Sem elas, nada disso existiria. Sem elas, nenhuma história floresceria.
__por Priscila D. Dal Lago

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